Seu problema é ser boazinha demais?

Seu problema é ser boazinha demais?
03.11.2017 Rosana Braga
boazinha demais

Minha mãe já dizia: tudo o que é demais, faz mal.

Essa assertiva, entre outros ditos populares e bases filosóficas, sempre pregaram o equilíbrio. Nem 8 nem 80. O caminho do meio. Essas crenças, por si só, já apontariam o erro na descrição de quem se considera “boazinha demais”.

boazinha demais

Legenda: Você é uma boa pessoa. / Créditos: Giphy e Bones (série de TV).

Todo mundo quer ser bom. Aliás, poucas são as que não se consideram, ao menos em algum grau, uma boa pessoa. E essa classificação, afinal, parece nunca ter feito mal a ninguém. Aprendemos, desde muito cedo, que bons devemos ser. Quando somos, recebemos elogios. Quando não somos, recebemos castigos, repreensões e até algumas palmadas.

Talvez por isso até mesmo aquelas que assumem seu excesso de bondade considerem esse detalhe, bem lá no fundo, como uma qualidade e não como um defeito, como tentam admitir. Alguma crença dentro delas faz com que sintam uma pontinha de orgulho por se doarem demais, por serem capazes de, apesar de muitas vezes não serem reconhecidas, irem além de seu próprio limite para ajudar o outro, de aguentar inclusive desaforos sem nunca deixar de serem boas.

O que as boazinhas demais demoram muito pra se dar conta é de que esse excesso tem um preço alto demais. Não que não valha a pena ser bom. Muito pelo contrário. A bondade, quando aliada ao respeito por si mesmo e pelo outro, é realmente uma das qualidades mais admiráveis de uma pessoa.

O problema é essa falta de limite.

boazinha demais

Legenda: O limite não existe. / Créditos: Giphy e Meninas Malvadas (filme).

É essa falta de respeito por si mesma. É essa perda do bom senso. É esse desejo de ser reconhecida, custe o que custar. De ser amada pelo outro mesmo que ela mesma não se ame e não se reconheça. Tem até uma pequena história que revela muito bem a dinâmica da boazinha.

É a história do macaco, muito conhecido na floresta por ser extremamente bonzinho, sempre disposto a ajudar quem encontrasse. Certa vez, ao chegar na beira de um rio para tomar água, viu um peixe passando na correnteza e decidiu salvá-lo do afogamento. Quando retirou-o da água, o peixe imediatamente se debateu, sufocando. Mas o macaco, certo de que fazia o bem, se admirava: “como está feliz o peixe”. Não tardou muito para o infeliz peixinho se aquietar e morrer. Foi o suficiente para o macaco, do alto de sua suposta bondade, concluir: “se tivesse chegado antes, teria salvado o pobre animal”.

Eu ainda acrescentaria nessa história que, se o peixe falasse, ao tentar convencer o macaco de que desejava ser solto e voltar ao rio, o macaco se sentiria profundamente magoado e não reconhecido por toda a sua bondade. Teria rapidamente acusado o peixe de ingrato e insensível.

Pois é exatamente essa a sina da pessoa que se deixa cegar por seu excesso de bondade: viver atropelando o outro na tentativa de ajudá-lo, de salvá-lo, de fazer de tudo por ele sem antes ter tido tempo de ajudar a si mesma, de salvar sua autoestima e de fazer por si o que tanto espera do outro.

Se você já percebeu que seu problema é ser boazinha demais, talvez esteja na hora de ter certeza de que a bondade está sempre acompanhada pela firmeza, pelo limite e pela sabedoria.

Ela sabe a hora de ajudar. Essa hora é sempre aquela em que o outro solicita e, em qualquer instância, ainda que da forma mais sutil que existe, faz por merecer.

Qualquer troca diferente disso é pura carência e falta de amor próprio. Na ilusão de estar sendo boa demais, a pessoa faz mal não só ao outro como, principalmente, a si mesma. E seu buraco interno tende a se tornar cada vez maior.

Em vez de ser boazinha demais, tente apenas ser firme e suave. Tente apenas ser flexível e coerente com seu próprio coração. Tente apenas ser boa na mesma medida com o outro e consigo mesma.

Esta é a arte da gentileza e da autoestima.

Rosana Braga
Psicóloga, Escritora, Jornalista e Palestrante. Pós graduada em Educação Sexual. Autora dos livros Quem Ama, Mostra, Faça o Amor Valer a Pena e O Poder da Gentileza.

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